Fransoufer

Francisco de Sousa Ferreira, FRANSOUFER, pintor e escultor, vive e trabalha em São Luis, nasceu em 9 de junho de 1958 no povoado de Mojó na cidade de Bequimão, Maranhão. Para dar continuidade aos seus estudos primários transfere-se para São Luís, onde tem seu primeiro contato com a arte, vindo a participar de exposições coletivas no colégio. Cursa o ginasial na Escola Nacional de Aprendizagem Comercial/SENAC e o científico no Liceu Maranhense. Paralelamente participa de salões, concursos e exposições coletivas de arte na capital São Luís. No início da década de 1970, ainda no Maranhão como Francisco Sousa Ferreira, tentava passar para a tela as fantasias que povoavam a sua imaginação de menino pobre da Baixada. Sem saber,  assumia o Surrealismo, movimento artístico lançado na França na década de 1920 e que se caracterizava pela expressão espontânea e automática, regrada apenas pelos impulsos do inconsciente. Esse movimento cultural que teve grandes expressões como André Breton, Salvador Dalí e De Chirico, proclamava  a prevalência absoluta do sonho, do instinto, do desejo, inspirado pela Psicanálise. Só que naquela época o jovem Francisco não sabia nada sobre isso, porém produziu dezenas de telas sobre seres extraterrestres, alienígenas fazendo  contato com a Terra, catedrais estratosféricas e outros temas. Estuda com Nagy Lages, pintor húngaro, desenho e pintura que influenciaria decisivamente sua carreira, ensinando-lhe o manusear do pincel e da espátula, a dosar as cores, a usar a luz, a desvencilhá-lo das formas anatômicas, atreladas ao estilo clássico e libertá-lo das amarras das escolas, seguidas pela maioria dos colegas maranhenses, adotando um estilo próprio por meio do qual pudesse melhor expressar- se. Em 1975, muda para Brasília onde cursa artes no Centro de Ensino Elefante Branco (Universidade de Brasília). Em 1977 volta a São Luís do Maranhão, onde faz dois cursos de extensão em arte promovidos pela Universidade Federal do Maranhão e a Fundação Cultural do Estado. Divide-se entre as principais capitais brasileiras para mostrar seu trabalho.  Em alguns de seus trabalhos, o artista transita pelas culturas universal e popular, contemplando personagens reais e mitológicos através de um passeio atemporal solidificado nas pinceladas de cores fortes, estilo peculiar do artista. A inspiração de Fransoufer veio de leituras e do sincretismo religioso, e o período tem pertinência com a época junina, uma vez que os trabalhos retratam símbolos da cultura popular maranhense, e vão além, permeando temas como a religião e a mitologia grega.  Logo cedo começou a utilizar a matéria-prima nativa para a composição de suas obras. Iniciando-se com pinturas de cunho surrealista, sucedidas por imagens inspiradas no folclore timbira, lembranças de seus tempos de menino. O artista pintava violeiros, boizinhos, vaqueiros, pregoeiros diversos, empinadores de papagaio, procissões de romeiros, casamentos na roça, vendedores de pamonha e figuras ligadas ao universo do bumba meu boi são comuns em sua obra, que apresenta cores fortes a exemplo do azul, vermelho e dourado.  “Não me prendi ao regionalismo. Busquei temas com os quais me identifico, como a mitologia grega, os santos e também elementos da nossa cultura popular”, justifica o artista. Na década de 80, Fransoufer enveredou pelas colagens, feitas com chitas coloridas, e visitou o figurativo, no qual expunha na tela cachos de juçaras, babaçus e tucuns. A década de 1980 revelou um pintor mais criativo, ousado, produzindo uma das fases mais interessantes da sua trajetória: as colagens, elaboradas com chitas floridas  de cores fortes, cobrindo os couros dos  bois, principalmente o Boi do Portinho no qual seu pai, João Grande,  tocava zabumba; às vezes  de finíssimas rendas que guarnecem as almofadas das rendeiras da Praia da Raposa, praia onde costumava recolher-se em busca de inspiração. Dono de uma carreira promissora, o artista manteve nesse período ateliês em Brasília e em São Luís, expondo a sua arte em Belém, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Cuiabá, e Imperatriz, além de Brasília e Goiânia, mais perto dos centros consumidores do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul. Nas coletivas que participa recebe  premiações (medalhas de ouro, prata e bronze)  e até no exterior (Bruxelas)  recebe menção honrosa. Foi efetivamente um período decisivo na carreira do pintor, cujas obras passaram a fazer parte do acervo de colecionadores de quase todo o País e, também, de instituições oficiais. A partir desse momento, começou a sua fixação por um santo, São Francisco. “Antes de nascer, minha mãe pediu a São Francisco um parto tranquilo e se o filho viesse com saúde, colocaria em mim o seu nome. E assim foi feito”, relembra o pintor, justificando sua devoção franciscana. Dessa forma, produz dezenas de telas nas quais retrata o santo de Assis na Baixada Maranhense, sempre em defesa dos animais ameaçados pela degradação ambiental, numa clara alusão às suas preocupações ecológicas. Nas telas, passeiam jaçanãs, japiaçocas, socós e caramujos, fauna que, na tela, lembra a temática trabalhada pelo poeta Manoel de Barros. Fransoufer experimentou óleo sobre tela, guache, aquarela, acrílico sobre duratex, até tinta plástica, colagens e óleo espatulado, retornando  na maturidade, à sua técnica original. O ambiente do sertão é caracterizado por um sol avermelhado e muitos mandacarus cujos frutos e flores atraem gafanhotos, libélulas  e  borboletas. Quando retrata a Baixada o fundo é representado por campos verdes ou alagados, cobertos de aguapés, junco, algodão e mururus, exibindo, orgulhosamente suas hastes com flores  lilases,  em  torno das quais circulam livremente marrecas, japiaçocas, jaçanãs, socós, búfalos e até caramujos. Outras vezes o Santo é retratado conversando com pássaros regionais, com peixes e até encantando cobras. Em outros quadros aparece tocando gaita, flauta, corneta, banjo, tambor e até pandeiro e sanfona. Nos quadros de Fransoufer os animais parecem ganhar vida própria, quase que saltando sobre o expectador. Outros santos também aparecem em sua obra: São João, São Jorge, São José, São Cosme e Damião, Santo Antônio, Santa Clara, a Sagrada Família e outros, geralmente, pintados  sob encomenda. Também vemos anjos cavalgando, antas, capivaras e pacas e até figuras carnavalescas. As ceias, belíssimas, presididas por Cristo que ora se veste como vaqueiro, ora como cacique, fazem, também, parte dessa fase e constituem os temas preferidos. O vinho é geralmente substituído por água contida em quartinhas de barro, cuias ou cabaças e o pão cede lugar a uma variedade de frutas regionais as quais o artista confere não só a cor, mas um sabor todo especial: mangas, cajus, ingás, oitis, jatobás, tuturubás, jacas,  ananases, bacuris, jenipapos, sapotis,  pequís, carambolas,  abóboras,  se  esparramam em profusão sobre mesas toscas,  cobertas com toalhas guarnecidas com rendas da Raposa,  ou simplesmente por jornais de circulação local. Na década de 1990 a cromática fora a maior preocupação do artista. As  cores ainda fortes são melhor trabalhadas. O uso de tons ”degradées” conferem uma maior dimensão e profundidade aos detalhes. Os traços fisionômicos, reduzidos, simplificam as figuras que raramente apresentam braços, como ex-votos, ou somente as mãos  são visíveis. Nas pinturas, as figuras humanas vão adquirindo o traço peculiar do artista, no qual se vislumbram os olhos oblíquos, que exprimem várias emoções de acordo com a forma como estão pintados no rosto, o nariz é reduzido a um simples traço e o estilo de Fransoufer, desde então, se torna inconfundível. Maduro, dono de uma obra sólida, a partir do início da década de 90 visita a Europa e frequenta inúmeros museus (Prado, Louvre), e trava contato com a raivosa obra escultórica de Pablo Picasso. De volta ao Brasil, Fransoufer trabalha no atelier de cerâmica da escultora Mônica Kuhner, e desde então nasceu nele o ceramista. Nessa época, retornou a Bequimão e montou na sua terra uma oficina, agregando jovens do município, dando origem ao grupo Cerâmica Jaburu, que rendeu várias exposições nas quais as obras daí advindas foram comercializadas. Muitas peças foram produzidas e vendidas em lojas de artesanato  de São Luís e em exposição no Shopping São Luís. Pesquisador constante, Fransoufer mergulhou recentemente no universo da mitologia greco-romana, daí nascendo em suas pinturas faunos, ninfas, harpias, sátiros, e as famosas Helenas, clara alusão à Helena de Tróia. Desde a década de 1970, quando iniciou sua carreira com o estilo figurativismo regional ao qual se mantém fiel até hoje, o artista tem em sua casa um acervo de quase 400 quadros. “Sou organizado com minhas coisas e costumo guardar todos os quadros que não vendo, construindo, assim, um acervo pessoal que dá uma mostra de minha carreira”, diz Fransoufer. . Com mais de 100 exposições individuais no currículo, o artista começou a carreira aos 15 anos, quando fez a primeira mostra em São Luís. Desde então, o trabalho foi sendo aprimorado e hoje Fransoufer considera que seu trabalho atingiu o amadurecimento. “Tenho um estilo próprio, mas não estagnei, fui evoluindo meu trabalho de forma muito natural, como acontece com a maioria dos artistas”, acredita o pintor. Durante a sua trajetória, o maranhense passeia com desenvoltura por duas principais temáticas que estão presentes não só em suas telas, mas também nas esculturas. Trata-se da cultura popular e da religiosidade. Convidado para ser o titular da Secretaria de Cultura do seu município desenvolveu, às suas custas, sem apoio material de fontes oficiais, mais quatro projetos: - Incrementar a  confecção de redes de teares, tentando resgatar  uma pequena manufatura local. Sem apoio algum, ainda chegaram a serem produzidas 40 redes. - Tapeçaria – técnica aprendida no Rio de Janeiro e aqui desenvolvida por mulheres moradoras de áreas de invasão. Dezenas de tapetes foram confeccionados e expostos na Galeria do SESC, e no Shopping São - Diversificação da produção de cerâmica em áreas de quilombolas, dos municípios de Bequimão e de Alcântara, em áreas já  produtoras de objetos  utilitários de barro, como potes, alguidares,  fogareiros, urinóis, etc. Os ceramistas aprenderam a modelar objetos de decoração. - Confecção de peças decorativas (jarros, flores,  copos, ventarolas), a partir de garrafas pet, descartáveis. Após várias tentativas frustradas para fazer algo por seus  jovens conterrâneos, para mantê-los afastados das drogas, principalmente da comercialização das mesmas, passou um mês nas matas do rio Jaburu, em um tijupá por ele construído com palhas de babaçu, alimentando-se, exclusivamente  de  peixes por ele apanhados, ovos, granola dissolvida em leite em pó e frutos silvestres, como camapus, araticuns, marias-pretinhas, murtas, muricis. Místico, supersticioso, tomou essa atitude para purificar-se de influências adventícias e espúrias que estavam interferindo em sua criatividade artística. Após esse período, voltou ao convívio civilizado, fortalecido, energizado e pronto para recomeçar a produzir uma nova série. Além de livros sobre História Universal, levou, também, livros sobre Mitologia e uma filmadora. A sua nova produção, enriquecida pelos  deuses do Olimpo, ninfas, harpias, faunos, sátiros e outros elementos que  integram o  universo onírico se encontra à venda em seu atelier no bairro Sítio Leal. As suas obras, estão, também à venda no Sebo Papiros do Egito e no Restaurante Maracangalha e em São Paulo na Galeria Rodrigo Paisin. Simples, despojado de vaidades e destituído de ambições, Fransoufer  já  foi tema de monografias, teses, documentários, capítulos de livros sobre Cerâmica no Nordeste, Artes no Brasil, Artes no Maranhão. Faz parte, como membro correspondente da Academia de Letras e Artes de Paranapuã, no Rio de Janeiro. A Telemar em  2000 selecionou dez obras suas, reproduzidas  em 2 milhões  de cartões telefônicos, com uma tiragem de 200 mil de cada quadro. Em todos esses anos, a preservação da natureza tem sido a proposta de Fransoufer, convidado em 1980, para abrir a Semana do Meio Ambiente com uma mostra realizada no saguão da agência do Banco Central, promovida pelo Ministério de Minas e Energia, sendo-lhe concedido o Escudo de Prata, pela postura pacifista adotada, portanto, alguns anos antes  da onda pró-ecologia que ora  sensibiliza os brasileiros. Com seu pincel, Fransoufer, muitas vezes criticado pelos colegas por fazer uma arte limpa, descomprometida com o caos atual, consegue com muita habilidade e a mesma simplicidade e despojamento, do seu homônimo o “povarello” de Deus, pregar o seu evangelho de paz, amor e esperança.   DISTINÇÕES RECEBIDAS 1979 – Menção Honrosa II Salão Universitário de Arte – São Luís/MA. 1980 – Comenda Des. Elisabeto Barbosa Carvalho – Personalidade do Ano – Pinheiro/MA. Troféu Thales Ramalho – Destaque em Pintura – Pinheiro/MA. Destaque em Pintura – Org. Magno – São Luís/MA. 1981 – “O Pintor do Ano” – Fundação Bandeira Tribuzi – São Luís/MA. 1982 – Escudo de Prata – Ministério das Minas e Energia – Brasília/DF. Menção Honrosa – V Salão Internacional de Artes Plásticas – Bélgica. 1986 – Menção Honrosa “Prêmio Brasileira de Artes Plásticas Medalha de Prata (2º lugar) – Salão de Abril